Não estava quente, na verdade a chuva forte e a frieza das ruas de São Paulo, estavam me congelando. Eu não podia voltar, pelo menos não para aquele barraco. Era pior lá. Passei uns 50 minutos debaixo de uma árvore. Não haviam muitas pessoas na rua, apenas 7 passaram bem perto de mim. O homem alto, com uma pasta na cabeça, apressou-se para pegar um táxi. Me olhou, dos pés a cabeça, como todos sempre faziam, balançou a cabeça e foi embora. Correndo, apressado. Duas mulheres com seus guardas-chuva, caminhavam um pouco mais lentamente. Também me olharam, ouvi uma resmungar para a outra. “Pobre menina.” Talvez eu fosse pobre, não tão pobre quanto elas. Passou também por mim, um homem com terno, uma bíblia, suponho que fosse um pastor. Me olhou, sorriu, e me entregou uma daquelas literaturas. Ele também foi embora. Não demorou muito para que a chuva engrossasse, comecei a pensar que eu realmente não tinha ninguém na minha vida. Ninguém que fosse capaz de me levar para casa, ou de me fazer um café quente. Fazia tanto tempo que eu não recebia carinho da sociedade. E logo hoje, que descobrira que estava grávida. Talvez outras tantas passaram. Me lembro da mãe com sua filha no colo, e do menino fumando um cigarro em plena tempestade. Com uma camiseta por cima da cabeça. Lembrei das palavras que havia ouvido antes de sair do barraco. “Você é só mais um lixo. Um lixo social.” Desde os 15 anos, minha vida nunca foi além de uma noite com velhos imundos, buscando o prazer que suas esposinhas não conseguiam dar. Daria tudo para ter o que elas tinham, mesmo sendo traídas. Elas tinham família, filhos, um dia no salão de beleza, elas podiam alimentar seus pequenos. Não demorou muito para que eu pensasse em desistir. A chuva já não estava tão forte. Aparentemente ELE, vinha andando em minha direção. Com apenas um casaco, shorts e um boné. Admirei me quando ouvi a voz meiga, suave. “Você precisa de algo para se aquecer.” A jovem lésbica sentou ao meu lado, e aproximou-se um pouco mais de mim. Estremeci quando ela tirou o casaco dela e me deu. Assim como as pessoas me olhavam, elas passaram a olhar nós duas da mesma maneira. “Eu não moro muito longe, você pode ir comigo e tomar um chá.” A frase que eu esperei ouvir de todas as outras pessoas aceitas socialmente, veio daquela que mais sofria preconceitos. Não pensei duas vezes. Ela me ofereceu mais do que uma noite de conforto, eu tinha uma cama para dormir. Estava cansada, precisava de carinho. Talvez eu ainda tivesse preconceito. Ignorei-o. Com o tempo, tornamo-nos mais do que amigas. Me lembro da mão quente dela, segurando as minhas, nas primeiras dores do meu parto. Minha filha nasceu em um dia de chuva, um dia como aquele. Em que encontrei o amor em uma pessoa tão necessitada dele. Não passou muito tempo para que eu pudesse entender, que a sociedade nunca iria me aceitar, ou aceitar a minha melhor amiga. Temi pela minha filha. Pelo que ela poderia passar. Adoeci alguns meses depois do nascimento dela. Temi a morte. E outra vez, pensei… “Que mundo idiota eu vou deixar para ela.” E outra vez ela estava comigo. Disse-me que o amor viria em uma noite chuvosa. E não importava se minha filha fosse uma prostituta, uma lésbica, ou uma ladra.
Eu sabia que a minha filha estava nas mãos certas. Sabia que ela ia sofrer, e que haveriam tantas outras pessoas que iriam parar, sorrir e ir embora. Mas, aquela mulher, vestida de homem. Iria mostrar para ela. O amor nas pequenas coisas. Em uma xícara de chá, e uma cama para dormir.
“Mariana Sousa, morreu um ano após o nascimento da sua filha. A menina não ficou órfã, ela tinha a melhor amiga da sua mãe. Tão guerreira, tão mulher, tão brasileira.” — Orquestrando.



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